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Triggo.ai · Plataforma T24 · Design lead da frente de IA · 2023 a 2025

O assistente precisa provar o que disse

A Triggo.ai construiu uma plataforma onde quem entende do negócio publica o próprio assistente de IA, sem passar pela engenharia. Ela entrou nas Top 10 LinkedIn Startups. O problema de design nunca foi fazer o modelo responder. Foi fazer alguém confiar na resposta a ponto de assinar embaixo dela.

Este case é sobre desenhar as partes que nenhuma demonstração de IA mostra: a fonte, o escopo, o erro e quem responde pelo risco quando o modelo erra.

O básico
Papel
Design lead da frente de IA: arquitetura de experiência, design system e as telas de três assistentes construídos sobre o mesmo núcleo.
Contexto
Plataforma no-code de IA, com clientes em saúde, locação de frota e locação pesada. Time de produto, engenharia e dados.
Restrição
O usuário final não é técnico e não tem paciência para configurar. E o erro do modelo tem custo real, de orientação clínica a cláusula de contrato.
O caminho

De promessa de modelo a produto que alguém assina embaixo

  1. 01

    Enquadrar

    Traduzir o que o modelo consegue fazer em algo que a pessoa de negócio compra. É o passo que decide se o resto existe.

  2. 02

    Núcleo único

    Um motor de assistente, três produtos em cima. O que muda entre eles é a fonte e a régua de erro, não a arquitetura.

  3. 03

    Confiança

    Fonte citada, escopo visível e avaliação da resposta. Sem isso, IA em produto vira opinião cara.

  4. 04

    Sistema

    Design system com componente que continua legível quando a resposta chega pela metade ou não chega.

  5. 05

    Prova

    Análise de contrato cláusula a cláusula, com avaliação por cláusula e campo para a pessoa discordar do modelo.

O problema

Demonstração de IA mostra a pergunta certa. Produto precisa aguentar a errada.

Toda demonstração de IA funciona. A pessoa digita a pergunta ensaiada, o modelo responde bonito, a sala aplaude. O que derruba o projeto vem depois, na primeira semana de uso real: a resposta veio confiante e errada, ninguém sabe de onde ela saiu, e o profissional que levou aquilo para o cliente é quem paga a conta.

Nos três produtos que eu desenhei nessa plataforma, o usuário tinha exatamente o mesmo medo, dito com palavras diferentes. O advogado perguntava de qual cláusula aquilo tinha saído. O analista de crédito perguntava se dava para conferir. O médico perguntava quem respondia se estivesse errado. Não é medo de tecnologia, é noção de responsabilidade profissional.

Parei de desenhar a conversa e passei a desenhar a prova. A pergunta que guiou o produto virou: o que esta tela precisa mostrar para a pessoa poder discordar do modelo com argumento?

Decisões

Quatro decisões, e o que cada uma matou

A resposta saía sem dizer de onde tinha vindo

A primeira versão tinha a conversa limpa, do jeito que todo mundo desenha chat: pergunta de um lado, resposta do outro. Elegante e inútil, porque a pessoa que precisa agir sobre aquilo não tem como conferir nada.

A resposta passou a carregar a referência ao trecho de origem, numerada, e o documento fica aberto ao lado com o trecho grifado. Na busca semântica, o pedaço que sustenta a resposta vem destacado dentro do próprio resultado.

O que eu decidi

Nenhuma resposta sai sem referência à fonte. Virou regra do produto, não preferência de tela.

O que eu descartei

A conversa limpa sem marcadores de referência. É mais bonita em print e não serve para decidir nada.

Um polegar no fim do texto não diz onde o modelo errou

O padrão da indústria é um like e um dislike embaixo da resposta inteira. Isso mede humor, não acurácia: se nove parágrafos estão certos e um está errado, o polegar para baixo joga fora os nove e não aponta o décimo.

Na análise de contrato eu quebrei a resposta em blocos nomeados, do objeto do contrato à resolução de conflitos, e cada bloco ganhou a sua própria pergunta de conferência, mais um campo para a pessoa escrever o que o modelo não viu.

O que eu decidi

Avaliação por bloco, com nove blocos de cláusula conferidos separadamente e espaço para o humano contradizer o modelo.

O que eu descartei

O polegar único no fim da resposta, e a ilusão de que ele gera dado de melhoria.

Ninguém sabia sobre o que aquele assistente podia responder

Assistente que promete responder qualquer coisa perde a confiança no primeiro assunto que ele não domina, porque a pessoa não tinha como saber que aquilo estava fora do alcance.

Documentos e pastas viraram tela de primeira classe, no mesmo nível da conversa. O acervo que o assistente pode ler fica visível e navegável para quem pergunta, antes de perguntar.

O que eu decidi

Escopo explícito e navegável. O usuário vê a fronteira do que a IA sabe sem precisar testá-la no erro.

O que eu descartei

A promessa de assistente que responde sobre tudo, que é exatamente o que mata a confiança na primeira semana.

No produto clínico, qualquer pessoa podia perguntar

Conteúdo clínico assistido por IA aberto a qualquer cadastro é risco regulatório e risco humano, nessa ordem de constrangimento e na ordem inversa de gravidade.

A validação de registro profissional entrou na porta, antes do primeiro acesso, e não como campo opcional de perfil depois.

O que eu decidi

Verificação de quem pergunta como parte do fluxo de entrada, com estado próprio de espera e de recusa.

O que eu descartei

Cadastro livre com aviso em letra miúda, que transfere o risco para o usuário e não resolve nada.

As telas

O que as decisões viraram na interface

Assistente jurídico: o contrato aberto de um lado, a conversa do outro, pergunta sugerida e resposta com referência ao trecho
Assistente jurídico: o contrato aberto de um lado, a conversa do outro, pergunta sugerida e resposta com referência ao trecho
Análise de contrato: nove blocos de cláusula, cada um com referência à origem, conferência própria e campo para a pessoa discordar
Análise de contrato: nove blocos de cláusula, cada um com referência à origem, conferência própria e campo para a pessoa discordar
Busca semântica: o trecho que sustenta a resposta vem grifado, e a próxima pergunta já vem sugerida
Busca semântica: o trecho que sustenta a resposta vem grifado, e a próxima pergunta já vem sugerida
Documentos e pastas: o escopo do que o assistente pode ler, visível antes de perguntar
Documentos e pastas: o escopo do que o assistente pode ler, visível antes de perguntar
Produto clínico: validação de registro profissional na porta, com estado próprio de espera
Produto clínico: validação de registro profissional na porta, com estado próprio de espera
Onboarding: o que o assistente faz e o que ele não faz, antes da primeira pergunta
Onboarding: o que o assistente faz e o que ele não faz, antes da primeira pergunta
A entrega

O que foi para a mão do cliente

3assistentes sobre o mesmo núcleoBusca geral, jurídico e clínico. Muda a fonte e a régua de erro, não o motor.
9blocos de cláusula com conferência própriaNa análise de contrato, cada bloco pergunta se está correto
0respostas sem referência à fonteRegra de produto, aplicada nos três assistentes
Top 10LinkedIn StartupsReconhecimento da plataforma no período

Uma observação de método, porque ela importa para quem avalia: os números acima saem dos artefatos e das telas, que eu consigo mostrar. Métrica de adoção e de acurácia em produção ficou com o cliente, e eu não vou apresentar aqui número que eu não medi. O que eu defendo é a decisão e o rastro dela na interface.

Próximos passos

O que eu faria a seguir

  • Fechar o laço da avaliação: a correção que o humano escreve no campo de insight precisa voltar para o conhecimento do assistente, em vez de morrer num campo de texto.
  • Usar a conferência por cláusula como métrica de acurácia por tipo de cláusula, e priorizar o que o modelo precisa aprender pelo que ele mais erra.
  • Expor custo e consumo para o administrador no mesmo lugar onde ele já vê o uso, antes da fatura e não depois.
  • Teste de usabilidade com quem assina embaixo da resposta, e não só com quem compra a plataforma. São pessoas diferentes, com medos diferentes.
Aprendizado

Confiança em IA não é o modelo acertar. É poder discordar dele.

Saí deste projeto com uma convicção que levei para tudo que fiz depois, inclusive para o produto que eu mantenho hoje: o trabalho de design em IA generativa não está na resposta, está na margem dela. Fonte, escopo, limite, rastro e o botão de discordar. É isso que transforma um modelo em algo que uma pessoa adulta aceita usar no trabalho dela.

O corolário incômodo é que boa parte do design de IA é desenhar o que o produto não vai fazer. Dizer não com clareza é mais difícil do que prometer tudo, e é a única coisa que sobrevive ao primeiro erro do modelo.

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